Tempo da delicadeza

O professor Roberto Sarmento Lima escreve um ensaio sobre Esconjuro, de Érika Santos, a primeira plaquete da Loitxa

Há uma canção de Chico Buarque intitulada “Todo o sentimento”, em cujo começo saltam à vista os seguintes versos: “Preciso não dormir / até se consumar / o tempo da gente”. É verdade que a expressão indefinida “a gente”, aí, se refere inequivocamente aos amantes que se despedem depois de constatar amores perdidos, quase num tom de litania. Os versos suscitam, ao longo do poema, leve intuição do retorno contínuo: “Pretendo descobrir / no último momento / o tempo que desfaz o que desfez”. A ladainha continua; e, no fim, se percebe que a única alternativa ao que o tempo destruiu reside na memória dos agentes envolvidos nessa atmosfera: “Depois de te perder / te encontro, com certeza / talvez num tempo da delicadeza”. Trata-se de um tempo que se foi e que insiste, no entanto, em permanecer, nem que seja na lembrança, que vivifica e recupera imaginariamente o fato que a noite tragou.

Faço essa conexão com o que se lê em Esconjuro, livro que, numa espécie de suspiro prolongado, resume em cada verso a expressão lírica, sobretudo quando esta parece mais invocar do que propriamente dizer. 

Um poema, em geral, está sempre do lado do contra, nunca a favor. Contra a vida e o amor que se foram, ainda que desejados; contra a amada ou o amado, que quebram, com a renúncia ao amor ou com a morte, a amável experiência do encantamento amoroso. Eis o que é “Esconjuro”, nome do poema que analiso agora, e o que é Esconjuro, o nome do livro que, confundido com o poema, ora se mostra aos olhos do leitor ávido de ler. Se a ladainha consiste num poema ou cantiga constituída de invocações aos santos — cada linha, cada verso é um chamamento ardoroso para alcançar a proteção dos céus —, o que vejo aqui é uma antiladainha, porque, nela, se esconjura, se expulsa o que deve desaparecer e não há santo nenhum por perto; não se pede exatamente proteção nem entrega de si à oração declamada no rito cristão.

O professor Roberto Sarmento Lima (foto: divulgação)

Isso porque não se está a salvo de nada, e a desproteção é a marca fundamental desse poema-livro. Nele se lê, sob a batuta suave de Érika Santos, sua sensível autora, “que um corpo / é sempre uma área de risco”. Para Chico Buarque, o sinal de tal concepção transparece em “te querer / até o amor cair / doente, doente”, doente de tanto amor — mas também poderia ser, sentimento contíguo, cair de muito ódio, ou de desilusão, desespero… O corpo, assim, se universaliza, compreende todos os sentimentos; e o tom lírico se volta, surpreendentemente, contra os mais sinceros transportes líricos, porque aquilo a que se visa não é apenas o corpo individual, mas o corpo social, da comunidade, de todos os atingidos, os que se encontram em risco permanente ou em insuperáveis situações de risco. O panorama implica tanto uma notação temporal como a extensão do espaço, cuja amplidão se recorta nessa menção à “área de risco”, sempre. Seja o corpo, seja uma cidade inteira.

O interessante disso tudo é que Érika Santos esconde o tempo todo do seu leitor a real motivação de “Esconjuro”. Que esconjura Érika? Ela não diz. O que, desse jeito, aprofunda mais ainda os entraves da leitura. Ou, pensando melhor, até a facilita, quem sabe. Afinal, o leitor está livre, assim como o eu lírico está soberanamente livre, para pensar no que quiser. A atmosfera pode levar a um sentimento de derrocada. Que é, na verdade, o risco a que me referi antes — uma quebra da harmonia textual ou a irrupção da própria desarmonia que o título sugere. A luta entre a mensagem social (dura e fria, monstruosa, a respeito do que um dia significou a natureza, que, no embate com a cidade, virou um fiapo de verde) e a disposição subjetiva de contornar a situação (uma reviravolta no conceito de natureza, que, de sua amplidão, se reduz a um canteiro para o deleite do eu lírico), a luta, enfim, aparece de forma sintética — apenas intuída —, como o comprovam estes versos, entre os quais se interpõe, como a delinear uma fronteira, a conjunção disjuntiva “ou”:

escrevo j-a-r-d-i-m como quem diz

estratégia para vender varandas

ou

coleção de plantas

O previsível corretor de imóveis e o pretenso candidato a fechar a compra da casa pensam numa direção: o verde é necessário, sim, embora possa ser descartado, e o fragmentado j-a-r-d-i-m pode, pois, ser apenas o que sobrou da paisagem, a qual, diminuta como imagem, entra no discurso do vendedor como uma “estratégia para vender varandas”. Na sequência, esse “ou”, nadando sozinho em um verso, formando, instituindo uma fronteira entre o cinismo implacável do comércio, por um lado, e, por outro, a concessão subjetiva da natureza, que o eu lírico se dá e com que se reconforta, termina por desembocar numa… “coleção de plantas”. Essa solução conduz, com sutileza, o poema ao abismo que limita essas duas áreas fronteiriças. Sei que “fronteira” é uma palavra extraída do vocabulário da geografia; e por isso pedi ajuda a um geógrafo, Cássio Eduardo Viana Hissa, autor da tese A mobilidade das fronteiras. É um geógrafo que é um verdadeiro poeta. O qual afirma, tendo como contexto a móbil modernidade, que, se se tiver de dobrar diante das exigências do circuito das vendas, se terá de se contentar com uma “coleção de plantas”: num canteiro, num vaso qualquer. Com Hissa a palavra: “Em muitas circunstâncias, define-se a qualidade de um texto por sua precisão”. Todavia, “é exatamente a palavra imprecisa — ou vaga — que cumpre melhor o papel de conceder retidão à representação escrita”. Isso dito por um cientista chega a ser espantoso. Parece mais uma declaração de poesia, aquela linguagem que, avessa à precisão, parece sempre e por isso mesmo querer dizer o contrário; e, assim, contra tudo e contra todos, ela se coloca até contra o próprio eu que engendra o texto lírico, pois sempre encontra “outro modo de dizer adeus”.

Dessa forma, leitor, desculpe Érika Santos! Ela é só poeta e, como tal, não quer sair do seu status! Agora, voltando a Hissa, este endossa o ponto de vista do geógrafo francês Eric Dardel, que escreveu há mais de setenta anos L’homme et la Terre: nature de la réalité géographique: “Para Dardel, a linguagem do geógrafo é a linguagem do poeta: bem melhor que a linguagem ‘objetiva’ do cientista”. Ora, vejam só, é um cientista falando! Para garantir não sair do abrigo dos autores compulsados, ratifico que a fronteira, e não exatamente o limite (que é uma linha abstrata), “coloca-se à frente (front)”, conforme diz Hissa, “como se ousasse representar o começo de tudo, onde exatamente [tudo] parece terminar”. Diz ainda o autor: “a fronteira, imaginada do mesmo lugar, está voltada para fora como se pretendesse a expansão daquilo que lhe deu origem” (o grifo é de Hissa).

E qual é, então, a origem do poema de Érika Santos?

Na sua construção de “Esconjuro”, essa espécie de antiladainha que celebra “um tempo que desfaz o que desfez” — notou, leitor, que tudo está contra tudo? —, Érika cria a expectativa de se situar (e nos fazer situar) numa fronteira, que, “voltada para fora” e não apenas para dentro do poema, se interessa, através da vaguidade deliberadamente acalentada nos versos, por um mundo outro, que não é só linguagem ficcional. É, assim, o mundo que originou o poema; é a realidade além dos limites das páginas desse Esconjuro, no duro. E, apesar de Érika não ter dito que realidade é essa sobre a qual se estiram os versos, eu só posso achar, sob todas as suspeitas possíveis, entrever um panorama agônico que está no seu entorno, na sua mira (ou ela não sentiria a vontade de se expressar num poema). E me atrever a dizer que o simples estar “contra o afogamento das árvores” não põe fim ao conflito que se põe entre o mundo objetivo da exploração urbana e o desejo de mera “lembrança da natureza”. Quem sabe o desejo apenas supere a crise do solo, sem resolvê-la, contudo! E tudo, então, se converta em “abrigo para os sonhos do mar”! 

Quem é, no entanto, que sabe do sonho do capital? Surdo e silencioso, esse vem minando vidas inteiras, a torto e a direito, sem comoção, sem lágrimas, sem a menor piedade (daí a necessidade de uma litania). 

Talvez saibamos tão somente do sonho, daquele sonho que empurra a comunidade violentamente afetada para além dos seus limites, expulsa do seu território — esta é uma hipótese de leitura de “Esconjuro” que arrisco (novamente, os riscos) fazer —; daquele sonho que, encaminhando-se para as fronteiras do espaço em que se deflagrou, chegue a desaparecer da vista de quem, da terra desolada, acompanha esse movimento de cemitério: 

porque, a dança 

do s 

l já não nos traz aurora

É belo e horrível esse confrontar-se e defrontar-se: sobrar na indecisão de ficar no front e sair dele. A poesia une e reúne, mas também, como insinua Chico Buarque na canção, gesta um lugar de te perder e de te encontrar, lá, mais ao longe, “num tempo da delicadeza / onde não diremos nada / nada aconteceu”. 

E, se possível, se a sorte ajudar, onde eu “apenas seguirei / como encantado ao lado teu”.

É preciso dizer mais? Se Érika não disse, que autoridade eu tenho para decifrar esse código, deixando, antes, para o leitor de Esconjuro, a satisfação de lançar sua hipótese de leitura? Apenas sugiro que busque — a seu modo e por seus sopros de consciência — escutar a realidade, perscrutá-la, senti-la sob as linhas escritas. Quem escuta a poesia escuta a realidade. Poesia foi feita para pensar, não para ser mero “cultivo de flores para decoração interior” ou “réplica florestal”, ainda que assim possa parecer. Pretende, no caso aqui específico, ser uma declaração “contra o afogamento das árvores”, sinal de protesto e resistência, antes mesmo que tudo desemboque arrebentado, chegando finalmente “à dimensão l a g u n a r”.

Este é, em suma, e apesar de tudo, apesar de toda a sofrência, o tempo da delicadeza — uma espécie manguaba lagoa —, a que querem aportar todos os poetas.

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Roberto Sarmento Lima é professor aposentado do curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas. É doutor na área dos Estudos Literários, tendo defendido a tese O narrador ou o pai fracassado: revisão crítica e modernidade em Vidas secas (depois transformada em livro), e foi promovido ao cargo de Professor Titular em 2020, com a defesa da tese Retratos do narrador cínico: confissões em lugares fechados (também publicado). Tem artigos em revistas acadêmicas (no Brasil e em Portugal) assim como em revistas para um público maior e diversificado, como as extintas Conhecimento Prático Literatura e Escrita, da Editora Escala, de São Paulo.

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