1.
,o silêncio dos gestos através
da palavra, agora, gritando
no papel - resistir -
beber d'água do mar também não
mata a sede de existir;
na beira da praia, escreve e
dança a dança
das ondas: corpo-movimento
bailando com dengo
repete baixinho
i put a spell on you
i put a spell on you
(mas foi com candura, não esquece)
: um sonho
a nossa palavra rasgando
com fúria o tempo
2.
três décadas sem entender o que eu sou talvez eu seja um questionamento ou uma inquietação uma insatisfação que não se desfaz não se desfaz e me persegue eu não reconheço esse rosto a minha memória é ilha deserta miragem e mormaço minha identidade é um assombro eu sou o fantasma de mim mesma quieta, silenciada com uma história apagada a minha incerteza cruza o atlântico e as minhas raízes se perdem em terras devastadas eu sou uma dúvida e vocês uma dívida eterna
3.
brasileira
crudelíssimo o sol arde na pele da moça que perambula com uma criança nos braços - no pingo do meio dia. bate palma de porta em porta. pede ajuda: "pode ser qualquer coisa". a criança brinca com um chocalho vermelho descascado, tem o rosto molhado e sujo. talvez chorou há pouco. de fome. cansaço. a pele em bronze, arde. crudelíssimo o sol vai secar as lágrimas em sua face.
*Os poemas 1. e 2. estão presentes no livro Poemas Obsessivos, Editora Triluna, 2022)
Mika Andrade nasceu em Quixeramobim, em 1990. É poeta e edita o projeto literário Escritoras CE. Organizou a Antologia Erótica de Poetas Cearenses – O Olho de Lilith (Jandaíra, 2019) e é autora dos livros Devoção – poemas reunidos (Ed. da Autora, 2021) e Poemas Obsessivos (Triluna, 2022).
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